Pós-Pandemia e Saúde do Brasil – Reflexões sobre o novo paciente consciente e mais colaborativo

“Humanos tendem a não olhar a longa distância. Agora somos requisitados, nessas gerações, a ter visão mais ampla sobre o que infligimos ao mundo e a nossa volta” Frank Herbert (Jornalista e Escritor de Ficção Científica).

Recebo esse honroso convite após vivenciar 50 dias de quarentena, e agora iniciando um lockdown, olhando e refletindo sobre a atual complexidade da gestão de recursos e o sofrimento das equipes-pacientes e familiares no ambiente hospitalar. Embora um pouco distante do “front”, busco diariamente colaborar no enfrentamento da Covid-19 participando dos encontros virtuais e, ao mesmo tempo, estudando, pensando, mentorando e escrevendo sobre os efeitos das diferentes ondas da pandemia.

O desafio de apontar o futuro sobre a pós-pandemia na saúde brasileira, aquilo que ocorrerá, num intervalo mais otimista, entre 1,5 – 2 anos, exigirá coragem e criatividade, tendo em vista que esse novo futuro não será a repetição do passado (período pré-pandemia) e dependerá de escolhas individuais e do coletivo.

O meu ponto de análise será o novo paciente, não mais o antigo paradigma, o já proclamado Paciente 4.0 (Dr. Google), às vezes com um traço de soberba sobre seu conhecimento, direitos e cobrança sobre os profissionais de saúde e as instituições. Na minha visão, surgirá um consumidor-cidadão que buscará empaticamente entender e colaborar com seu autocuidado e porque fazer escolhas apropriadas em relação à sua saúde e também dos impactos econômicos que a saúde promove na vida dos indivíduos e os custos envolvidos para o sistema de saúde.

A partir do aprendizado diário das informações, que são geradas pelos meios de comunicação de forma exaustiva e que adentram os lares, certamente influenciam no cotidiano das famílias brasileiras. A “crise pandêmica” está ativando e redesenhando um novo cidadão usuário dos serviços de saúde a partir de uma diária atividade da moderna literacia em saúde. Haverá profunda mudança sobre o real significado do papel dos verdadeiros heróis nacionais (os profissionais de saúde que combatem na linha de frente), o entendimento da importância da ciência, a verdadeira função da imprensa livre com informações de real credibilidade e o profundo desserviço das fake news. Ao lado disso, as nossas indulgências e assimetrias na qualidade dos serviços de saúde vivenciadas em tempo real pela população brasileira serão os pilares para essa nova consciência do novo cidadão brasileiro em relação aos aspectos ligados à saúde e seus determinantes sociais. A nossa relação com o consumo, inclusive os ligados às áreas da saúde e do bem-estar, tiveram grandes mudanças frente ao isolamento e redução da renda, gerando novos desejos, necessidades e prioridades que caibam no orçamento das famílias. Dessa forma, após o término dessa longa travessia, em que participamos de um prolongado isolamento social e forte relacionamento com a velha mídia e as mídias sociais em que fomos expostos maciçamente a notícias diárias sobre medicina, hospitais, ciência epidemiológica e clínica, aprendemos de forma dolorosa a relação saúde-economia.  Portanto, teremos provavelmente desenvolvido um novo mindset a partir da experiência humana coletiva do mundo VUCA (Volátil, Instável, Caótico e Ambíguo), e das sequelas e reflexões que estarão presentes nos indivíduos, nas organizações, na sociedade, no Governo e Estado brasileiro. Em resumo, a construção da nova realidade (nova normalidade) envolverá um espírito de cidadania com maior senso do coletivo e não mais tolerante com as imensas desigualdades.  

O novo humanismo será expresso pelas atitudes de colaboração, solidariedade, flexibilidade, autoconsciência e preocupação com o outro e com a valorização da empatia, que estarão mais fortemente presentes no espírito das pessoas. O somatório de todos esses elementos irá moldar profundas mudanças no setor público e privado, que serão cobrados por maior grau de transparência, eficiência e participação dos processos decisórios do cidadão em relação às questões ligadas à saúde. Ao lado disso, teremos que enfrentar grandes desafios nas áreas da saúde mental e da assistência social frente ao grande número de indivíduos com desordens psicoemocionais e do crescimento de excluídos e de “novos vulneráveis” no período pós-pandemia.

O enfrentamento da prolongada crise econômica (segunda onda) necessitará ser analisada e tratada com maciços investimentos no setor privado e público para reestruturação do Sistema Unificado de Saúde (SUS). As discussões da carência de insumos para enfretamento da pandemia no país (risco China) forçará a retomada dos investimentos do complexo industrial da saúde no Brasil. Será fundamental investir em biotecnologia e na pesquisa biomédica a partir das parcerias público-privada e a conexão e modernização da governança e financiamento da Academia. Para a nova era, o cidadão estará atento à importância da modernização da gestão e da estrutura dos hospitais e da qualidade da prestação de serviços de saúde e participará ativamente como protagonistas e apoiadores da transformação digital na saúde.

A medicina digital será uma das prioridades e estará presente nas casas e até em lares de idosos monitorando dados em tempo real e transmitindo informações para manutenção da saúde dos indivíduos e promovendo integração dos cuidados de saúde e assistência social. A necessidade de gerar resultados de curto prazo e sustentabilidade do setor privado pode levar a uma sequência de falências de empreendedores. Consultórios, clínicas de medicina diagnóstica, clínicas populares e provedores mais robustos, como hospitais, seguradoras, planos de saúde, caixas de assistência e cooperativas, precisarão ser formatados a partir das exigências e valores desse novo paciente.

Um novo ecossistema será formado a partir da mudança icônica dos hospitais na pré-pandemia como símbolos de segurança e status. No pós-pandemia, eles serão identificados como locais que deverão ser apenas frequentados em momentos especiais e de forte necessidade. Desta forma, ganhará grande destaque a medicina de família e o cuidado domiciliar, empregando tecnologia com forte participação da equipe multidisciplinar.  A saúde física e mental, com foco na prevenção primordial/promoção da saúde, será enxergada como o verdadeiro “passaporte da imunidade” para as próximas pandemias e para uma vida independente e plena.

Enfim, iniciamos uma nova era com a participação do indivíduo com seu autocuidado, maior entendimento dos custos da saúde e do papel da boa gestão dos recursos na saúde e da grande relevância da transformação digital da saúde. Em resumo, ao lado de uma nova normalidade, se instalará, de forma progressiva e definitiva, um novo pró-consumidor de saúde mais racional com suas escolhas e com maior entendimento do complexo funcionamento do sistema de saúde e dos impactos econômicos.

Evandro Tinoco Mesquita

Professor Titular de Cardiologia da UFF (Universidade Federal Fluminense)

Presidente do Capítulo CBEXs RJ e Educador CTEB/UHG

Coordenador da Universidade do Coração da Sociedade Brasileira de Cardiologia (Biênio 2020/2021)

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